A família que produz toneladas de comida no quintal de casa

09 MAI 2016
09 de Maio de 2016

 

O que começou como um hobby virou uma filosofia e um estilo de vida: uma "revolução caseira", como a apresentam seus criadores, a família Dervaes.

Jules Dervaes mora com seus filhos Anais, Justin e Jordanne em uma casa em Pasadena, Califórnia, não muito longe de Los Angeles.

Mas, ao chegar na parte de trás da casa, mudam as noções de espaço e tempo, e o visitante se sente como se estivesse em pleno campo.

Quilos de comida

Os Dervaes produzem em seu próprio terreno cerca de 2.700 kg de alimentos por ano, com uma lista variada de produtos: vegetais, frutas, ovos, leite, geleia, mel, chocolate e condimentos.

"Mas isso vai além de comida", disse Jules à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, enquanto faz as vezes de guia em um dia ensolarado de primavera.

"É uma forma de vida, alheia ao consumismo e à rapidez que caracterizam o mundo atual. É uma volta aos valores de nossos antepassados", defende.

Além da produção de alimentos, a família organiza sessões de cinema e de música tradicional em sua casa e se oferece para cuidar das crianças da vizinhança quando os pais precisam.

Adaptação constante

Por mais romântica que a história possa parecer, o certo é que Jules Dervaes está nervoso e preocupado.

Já são quatro anos sofrendo os efeitos da seca e, às vésperas de mais um verão, ele não sabe por quanto tempo poderão seguir em frente.

"Tivemos que nos adaptar e testar diversas estratégias", diz.

"Além da horta, que é nosso principal recurso, temos um jardim de flores e plantas, algumas delas comestíveis, e também nos aventuramos na produção de geleia, mel, chocolate e até refrigerantes", conta.

Apesar de a família defender uma volta às tradições do passado, que acreditam ser mais saudável para o corpo e o espírito, os Dervaes estão na vanguarda em relação a técnicas para economizar energia e, sobretudo, reduzir o consumo de água.

Seca preocupante

As autoridades da Califórnia estão incentivando os moradores a mudar a aparência de seus jardins.

Querem convencer as pessoas a substituir a grama, que requer e gasta muita água, por plantas nativas, mais adequadas a este clima, como, por exemplo, o cacto.

Os Dervaes não apenas se adaptaram rapidamente a estas medidas como também deram outros passos na economia de água.

Eles têm um sistema para recuperar água que sai da casa e com ela regar algumas de suas árvores, e o mesmo ocorre com uma ducha externa, cuja água é empregada para regar plantas em vez de desaparecer por um cano.

Uma postura ante a vida

Esta constante adaptação às circunstâncias é algo que caracteriza a vida desta família.

Nascido em Tampa, na Flórida, Jules Dervaes se mudou para a Nova Zelândia em 1973 para começar uma vida rural e se distanciar dos Estados Unidos que, com seus princípios econômicos e a Guerra do Vietnã, o haviam decepcionado.

Mas circunstâncias da vida fizeram com que Jules e sua família voltassem ao país; primeiro para a Flórida, onde colocou em prática as habilidades de criação de abelhas aprendidas na Nova Zelândia, e em 1985 foram para a Califórnia, de onde não saíram mais.

Em 1985, ele comprou a casa que agora é seu meio de vida e, a partir de 2001, comovido com as informações sobre alimentos transgênicos, decidiu cultivar seus próprios alimentos.

Desde então, tem sido um processo de tentativa e erro.

"Para alcançar o objetivo de produção que tínhamos, em um espaço tão pequeno, tivemos que ampliar, ampliar, ampliar", explica Jules.

"A horta começou na parte de trás, com um sistema de pequenos lotes que é eficiente em uso da água e deixa que os 'insetos bons' se aproximem."

"Da parte de trás estendemos para o jardim da frente, depois usamos a entrada para carros e finalmente tivemos que recorrer ao terreno de uma vizinha, onde temos parte do nosso cultivo", conclui.

Superar contratempos

Com sua "revolução caseira", como eles a chamam, a família Dervaes atraiu muita atenção de fora.

Jules diz que as pessoas veem sua horta e querem uma igual, sem parar para pensar que é um trabalho de 15 anos, além da experiência prévia.

"Não é para tentar fazer tudo ao mesmo tempo", sugere.

"É melhor começar pouco a pouco e não se render diante dos contratempos. Tivemos os nossos, mas disso não temos fotos", ri.

"É preciso seguir em frente, os revezes não são para sempre."

Um planeta doente

Jules não gosta do rumo que a espécie humana está tomando. Em sua opinião, somos cada vez mais dependentes da tecnologia e de coisas materiais.

Em seu caso, diz que é impossível competir com as grandes redes ou empresas de vendas pela internet.

Ainda assim, a família consegue vender parte de sua colheita para pequenos restaurantes ou pessoas que vão à casa recolher uma caixa cheia de produtos naturais.

"Vivemos em um planeta doente que parece gritar: me ajuda, me cure!"

"Nós queremos marcar a diferença. Começamos pela comida, incorporamos o elemento da música e caminhamos para uma vida de companheirismo e diálogo."

"Isso não é um hobby, é um projeto para as gerações futuras e uma questão de sobrevivência."

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/geral/2016/05/160509_familia_plantacao_lab

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