O deserto colorido e mortal onde cientistas procuram os extremos da vida

02 MAI 2016
02 de Maio de 2016

É o lugar mais quente do planeta, e isso não se sente apenas no ambiente externo.

Também é o mais quente no solo. Como é uma depressão, o magma está mais próximo da superfície, o que faz com que a água da chuva e do mar (que infiltra na terra) se esquente até estourar em gêiseres de 90ºC de temperatura, levantando nuvens amarelas de enxofre e impregnando o ar com sais de cloreto.

A depressão Danakil, na Etiópia, é um dos locais mais inóspitos do mundo.

O rio Awash chega até lá para morrer sem alcançar o Oceano Índico. Não há plantas nem animais nem vida - será?

Isso foi o que o astrobiólogo Felipe Gómez foi verificar.

Para ele, a viagem é a realização de um "sonho de criança".

"Sempre quis me relacionar com as ciências espaciais. O que não podia imaginar era poder desenvolver isso. Sempre fui apaixonado pelo universo. Além disso, a vida, o processo químico que conhecemos como vida, me intrigava muito, e o fato de os cientistas não entrarem em acordo sobre o que ela é".

Gómez conciliou as duas coisas e se envolveu com o Centro de Astrobiologia da Espanha, em colaboração com o Instituto de Astrobiologia da Nasa (agência espacial americana).

"Envolvi-me em projetos espaciais, estudando a habitabilidade, e acabei em pesquisas sobre a vida em ambientes extremos", afirma Gómez, sobre como foi parar nesse ponto da África em que o movimento das placas tectônicas está causando uma ardente depressão.

Vida no limite

Gómez queria "estudar a vida desde o ponto de vista dos limites: em qual momento aparece e quanto suporta".

"Isso me levou ao Atacama, à Antártica, ao Ártico e agora à Etiópia, que são tão extremos que parecem outros planetas. O passo seguinte é verificar se realmente existe a possibilidade de vida fora da Terra. Podemos encontrá-la em Marte, por exemplo? E se encontrarmos, vamos reconhecê-la?", disse o pesquisador à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Ou seja: apesar de ter os pés na Terra - em brasas ou congelada -, Gómez vive com a mente em outro mundo. "Certo, certo", diz ele, aos risos.

O astrobiólogo e equipe se hospedaram em um povoado da etnia afar, último ponto habitado na região, muito próximo à fronteira com a Eritreia.

"É uma região completamente desabitada, mas é preciso ir com seguranças, porque as fronteiras estão próximas e a situação é complicada."

Até nesse deserto, a ameaça humana está presente. E não é o único risco que a equipe tem que enfrentar.

"Não se pode respirar as emissões de enxofre, então tínhamos que sair quando o vento trazia essa substância."

O trabalho se deu em uma condição "multiextrema": temperaturas elevadas, pH muito ácido, alta carga de metais. "Realmente muito interessante, não?", brinca Gómez.

O resultado final do trabalho ainda está por vir, mas os primeiros achados convenceram Gómez de que há vida por lá.

"Onde há água, há vida, quaisquer sejam as condições ambientais."

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/curiosidades/2016/05/160502_deserto_vida_tg

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